Xingu, Jalapão e o Centro do Brasil

Aquecimento para a viagem ao Jalapão. Nesses dias, fui convidado para uma viagem em conjunto com outros 9 blogueiros de viagem, dentro do projeto Adventure Bloggers. A viagem será até o Jalapão, um desses lugares onde o progresso ainda não chegou. Como veremos a seguir, às vezes o progresso não é um aspecto positivo para certos lugares ou populações.

Situado no estado do Tocantins, o Jalapão é um paraíso ecológico bem no centro do país, um lugar para quem gosta de natureza e turismo de aventura. A região é cheia de paisagens únicas, como cachoeiras, rios, chapadas e rochas.

Por conta de sua natureza praticamente intocada, o local serve de locação para algumas produções cinematográficas. De acordo com um dos diretores do Ministério do Turismo, Ricardo Moesch, “a relação entre turismo e cinema é um mercado a ser trabalhado pelo país, uma vez que as produções cinematográficas são importantes ferramentas de marketing turístico”.

Entre as produções realizadas na região do Tocantins, estão “Deus é Brasileiro”, “Survivor Tocantins” e o mais recente, “Xingu”, de 2012, dirigido por Cao Hamburguer. 

Xingu, Jalapão e o Centro do Brasil

Os irmãos Villas Bôas viajam ao centro do Brasil em busca de aventura e acabam transformando a história dos índios

O filme “Xingu”, produzido pela O2 (produtora do Fernando Meirelles, de “Cidade de Deus”), foi lançado nos cinemas em 2012 e não atingiu a marca de 400 mil espectadores. A nova safra de comédias brasileiras atinge mais de 1 milhão de espectadores, como foi no mesmo ano as produções “E Aí Comeu?” (2,5 milhões de público) e “Até que a Sorte nos Separe”(2,2 milhões).

Sem querer desmerecer as comédias, mas “Xingu” era um projeto ambicioso e bem realizado, que conta uma parte importante da história do Brasil. Merecia um público maior. Posteriormente, na tentativa de ampliar o público, o filme virou uma série de televisão, ganhou nova montagem e foi exibido na TV Globo.

Uma expedição ao interior do Brasil

A história começa quando os irmãos Villas Bôas resolvem embarcar numa expedição ao interior do Brasil. Eles desejam aventura. O filme conta como essa viagem, que a princípio começou pela vontade de fazer uma aventura. Vira a trajetória de homens que mudaram a história da população indígena no país e, evitando o conflito entre índios e brancos, também mudaram a história do Brasil.

Mas apesar do filme contar a história dos 3 irmãos, o maior foco é na trajetória de Claudio Villas Bôas (interpretado por João Miguel, de “Estômago”). O contato tão desejado com o desconhecido, através dos índios, acaba se tornando uma agonia, já que todo contato representa uma mudança. 

De início, uma simples gripe para os brancos, pode matar grande parte de uma aldeia. Ou a relação com o dinheiro e a vida civilizada, pode eliminar a cultura indígena. O progresso, representado pela invasão das terras indígenas através de plantações, criações de gado ou até mesmo da Transamazônica, nem sempre é um aspecto positivo. Principalmente quando representa a invasão e aniquilação dos índios.

Parque Nacional do Xingu

Uma das cenas mais emblemáticas desse conflito de Claudio é quando ele obriga alguns índios a mudaram-se para a reserva indígena. Uma família não deseja essa mudança, prefere o emprego e o dinheiro da civilização. Mas ele os obriga, numa metáfora de todo o seu empenho em procurar manter a cultura dos índios viva, apesar do progresso e dos contatos com a cultura “branca”.

Na tentativa de isolar e proteger a cultura dos índios, os irmãos Villas Bôas foram responsáveis pela criação do Parque Nacional do Xingu, há mais de 50 anos atrás. Na época, o parque foi criado pelo presidente Jânio Quadros, sob projeto e influência dos irmãos. O filme ilustra a conversa de Orlando Villas Bôas com Jânio Quadros, na tentativa de convencê-lo da criação do parque. 

Claudio Villas Bôas (João Miguel) em momento de alegria entre os índios,
após a criação do Parque Nacional do Xingu

O turismo acaba por viver também esse conflito. Quanto mais os destinos tornam-se turísticos, mais perdem a sua identidade, as suas características iniciais. Por isso, a existência de parques funciona muito bem para a preservação desses lugares.

O primeiro parque criado no Brasil foi o Parque Nacional de Itatiaia, em 1937. Mas existem diversos outros, entre os mais famosos o Parque Nacional do Iguaçu, o Parque Nacional de Jericoacoara e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Confira alguns dos parques nacionais do Brasil

Os irmãos Villas Bôas em cena do filme Xingu

Para filmar, a equipe de Xingu viajou para o centro do país, especificamente para as terras do Tocantins e do Parque Nacional do Xingu, que fica no estado de Mato Grosso. O tempo de filmagem em Xingu foi o menor possível, para não causar impacto na população indígena. Por isso boa parte das cenas foi gravada em Tocantins. 

Escolha de locações

As escolhas de locações foram baseadas nos cenários que a equipe de fotografia queria compor. Em São Félix do Tocantins, por exemplo o objetivo era a paisagem de cerrado, uma paisagem mais desértica, enquanto em Caseara, quase na divisa com o Pará, foram realizadas as cenas com mata mais fechada.

A equipe ainda passou por Palmas e Miracema do Tocantins. Miracema, aliás, foi escolhida como locação para representar a cidade de Xavantina na película. Durante as filmagens, a equipe aproveitava o rio Tocantins, que fica às margens de Miracema, para se refrescar.

Miracema do Tocantins é a locação que representa Xavantina, local onde a expedição dos Villas Boas começa.
Foto: O2 Produções

A equipe visita as locações antes das filmagens para conhecer cada lugar, em especial o comportamento da luz, ou seja, que horas o sol nasce, que horas o sol de põe, já que para a fotografia a luz é um componente essencial. Seria ótimo se durante as viagens pudéssemos fazer isso, por isso eu acho legal visitar os lugares mais de uma vez. Você aprende mais sobre ele, e dessa forma pode fotografar melhor.

O diretor de fotografia Adriano Goldman comenta que ao invés de buscar apenas as luzes do começo e final do dia, sempre mais bonitas, procurou também a luz do meio do dia, uma luz dura, que procura retratar a dificuldade que os Villas Bôas encontravam na região, que é muito quente. 

Rios de água cristalina e a beleza do cerrado

Adriano Goldman comenta sobre as locações.

“Começamos em São Félix do Tocantins aonde construímos o cenário do posto Leonardo e onde filmamos em rios lindos de água cristalina e a paisagem do cerrado. Depois Caseara onde filmamos o posto Diauarum e rios com água turva, muito mais largos e árvores muito mais altas, mais amazônicas. A diferença das paisagens sempre foi um dos pontos que o Cao quis enfatizar, assim perceberíamos melhor as distâncias percorridas e o isolamento do Claudio. Depois a região de Palmas e dalí para a Aldeia Yawalapity, verdadeira viagem no tempo, incrível experiência e, por último São Paulo, onde a história começa. Muitos quilômetros rodados.”

Uma curiosidade sobre as cenas noturnas é que elas foram realizadas no método Noite Americana. Ou seja, as cenas são filmadas durante o dia e na pós produção o ambiente é transformado em noite. O diretor de fotografia do filme, Adriano Goldman, explica um pouco mais como é o processo nesse vídeo.

Os irmãos Villas Bôas em contato com os indíos e a natureza da região central do Brasil

Filmando no Jalapão

Andréa Barata Ribeiro, sócia de Fernando Meirelles na O2, comenta como foi filmar no Jalapão.

Todo o dia a natureza nos brindava com espetáculos visuais de tirar o fôlego. Os pores-do-sol mais lindos que já vi, revoada de araras, tucanos e papagaios. Siriemas, emas e até um urubu rei brancão eu vi. Hoje não resta dúvida de que tomamos a decisão certa de levar as filmagens para o centro do Brasil, onde os irmãos Villas Boas viveram grande parte de suas vidas. Olhando o material que vai sendo revelado, podemos ver impresso no filme a força bruta da natureza selvagem. Essas imagens nos dão uma idéia da aventura que os irmãos viveram. Os caras eram bem loucos!

Além das belas locações e da linda fotografia, o filme também traz interpretações precisas de todo o elenco, em particular de João Miguel. O ator alterna momentos de choque e alegria nessa trajetória pelo interior do Brasil.

Ao final, seu personagem, Claudio Villas Bôas, conclui. “Andar por terras que ninguém andou. Chegar em lugares em que branco nenhum chegou. Porque não há lugar em que o branco não chegue. Chegar antes, sempre foi tudo o que pudemos fazer.”


Fontes:


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