Os melhores filmes de viagem: Diários de Motocicleta

Vamos falar sobre uma viagem que com certeza inspirou viajantes pelo mundo, a viagem de dois jovens estudantes de medicina pela América do Sul.

Nessa viagem, tanto Ernesto Guevara como Alberto Granado fizeram suas anotações.

Assim como os diários de Ernesto Guevara, eu também tenho os meus diários de viagem, embora nenhum deles possa um dia virar uma obra cinematográfica, mas com certeza são diários (e viagens) inspirados pelo cinema.

Uma viagem pela América do Sul: Diários de Motocicleta

Quando o cinema e as viagens, minhas duas grandes paixões, se unem

Ernesto Guevara e Alberto Granado atravessando a pé o Deserto do Atacama

Os diferentes tipos de viajante

Existem diversos tipos de viajante. Existem até diferentes denominações: alguns denominam-se viajantes, outros turistas, há até alguns que não gostam de ser chamados de turistas e sim de viajantes.

Existem os aventureiros ou os que gostam de viagens empacotadas, os que viajam sozinhos e os que só viajam acompanhados, os que se hospedam em qualquer lugar (pois “hotel é só para dormir”) ou os que só se hospedam em certos lugares, os que viajam com família e os que viajam com amigos, os que fazem amizades no albergue e os que estreitam cada vez mais os laços com seus companheiros de viagem e finalmente os que viajam para conhecer lugares e os que viajam para conhecer pessoas.

Mas não importa o tipo de viajante (ou turista) que você é.

Mesmo com todas as diferenças de estilos de viagem, todo mundo que gosta de viajar se entende e se identifica, nesse mundo envolvente e viciante que é o universo das viagens.

Uma viagem de motocicleta

Ao assistir o filme “Diários de Motocicleta” (The Motorcycle Diaries, 2004), de Walter Salles, não há como eu me identificar menos com o estilo de viagem dos amigos Ernesto Guevara (Che Guevara, um dos líderes da revolução cubana) e Alberto Granado.

Durante a viagem que os dois se propõem pela América do Sul, começando na Argentina e através de uma motocicleta (veículo que eu não dirijo), os dois passam por diversos perrengues, desde a moto (apelidada de La Poderosa) que quebra ou cai diversas vezes ou ainda por trechos enormes que eles são obrigados a percorrer a pé ou de carona (aliás, carona é uma coisa que eu acho que peguei raras vezes na vida).

As diferenças de estilo de viagem de Ernesto e Alberto com o meu estilo de viagem não param por aí. Eles dormem em qualquer lugar, pedem abrigo na casa de desconhecidos, passam fome e frio, inventam histórias para conseguir benefícios e se aventuram por lugares inusitados ou não planejados. Enfim, se você quiser saber como eu viajo, é só pensar no oposto a tudo o que eles fazem.

No início da viagem, no Lago Frías, próximo a Bariloche

As viagens transformam os viajantes

Mesmo assim, a viagem dos dois me tocou profundamente. Justamente porque a forma importou menos que a experiência para despertar essa empatia. É certo que o personagem e a interpretação de Gael Garcia Bernal, como o jovem Che Guevara, são profundamente simpáticas. Seja pela grandeza de seus gestos e pensamentos (como na forma honesta como prefere falar com as pessoas, ao invés das mentiras simpáticas de Alberto) ou até mesmo por suas fragilidades (a asma ou as doenças que ele enfrenta durante a viagem). Mas principalmente por conta da forma como a viagem o transforma.

Se no início ele visita sua namorada e mantém os 15 dólares que ela deu a ele para comprar uma calça nos Estados Unidos (nem mesmo troca para comer ou gastar com remédios), no decorrer da viagem esses dólares são entregues a um casal de comunistas que passa necessidades nas minas de Chuquimata.

É um símbolo de como Guevara se modifica nessa viagem, passando de um jovem mochileiro que deseja apenas uma aventura de viagem para um homem que lutará contra as injustiças sociais, quase sempre atuando de forma altruísta.

Não que eu seja altruísta, mas o modo como as experiências de viagem o modificaram é realmente tocante. E tudo culmina com a última parte do filme, quando ele trabalha como voluntário numa colônia de leprosos.

O tema de como as viagens modificam o viajante, que já vimos no filme “Albergue Espanhol” e em “Central do Brasil” (também de Walter Salles), aqui é desenvolvido com perfeição. O viajante incorpora para si todas aquelas figuras que conheceu durante a viagem, e Salles habilmente termina o filme com “retratos” em preto e branco das pessoas que passaram pela viagem de Guevara.

Os destinos da América do Sul

A película conta com locações reais em diversos destinos da América do Sul, como a Patagônia Argentina, na região dos Lagos (onde ele fica doente depois de entrar numa lago gelado, outra dessas loucuras que eu nunca faria, rs) e na região de Bariloche.

Depois ele parte para o Chile, na cidade de Temuco (filmado na realidade nas cidades de Freire e Lautaro) e chega em Valparaíso, onde o filme mostra uma cena nos funiculares (bondinhos que transportam as pessoas entre as regiões alta e baixa da cidade) ainda hoje se encontram operantes (são 15 em funcionamento). Já sem a moto, eles atravessam o Deserto do Atacama a pé.

Chegando em Valparaíso, no Chile

As experiências a seguir se passam no Peru. Ele chega em Cuzco, no “coração da América”, mastiga folhas de coca e conversa com o povo inca, em seus trajes coloridos e expressões cansadas e tristes.

No entanto, boa parte das cenas de Cuzco foi de fato filmada em Ollantaytambo, local que visitamos durante nossa viagem ao Peru e que apresenta um dos sítios mais conservados da região do Vale Sagrado. Ali, a cidade ainda se apresenta na mesma forma como era na época dos incas.

Depois de Cuzco, há logicamente o caminho pela trilha inca até Machu Picchu, lugar que eles encontram deserto. Adoraria ter essa experiência, imagina que incrível poder passar o dia inteiro em Machu Picchu, sem mais ninguém por lá. Coisa de cinema?

Alberto Granado explica: “Em 1952, eu tinha 29 anos e Ernesto, 23. Como a maioria dos argentinos daquela época, nós sabíamos mais sobre os gregos e fenicianos do que sobre os incas e a América Latina. Nós não sabíamos onde era Machu Picchu”.

Os dois viajantes chegam a Machu Picchu

O que motivou Walter Salles a participar do projeto

Em artigo para a Folha, Walter Salles explica que após o convite de Robert Redford, produtor do filme, Salles hesitou em tocar o projeto.

Mas após a conversa com o verdadeiro Granado,  em que ele revela por exemplo que a juventude da época não sabia onde era Machu Picchu (não tinham a informação que temos hoje em dia) Salles se motivou a contar essa história: a história de dois jovens que saem para conhecer a América Latina, mas acima de tudo para conhecer a si mesmos. Então o que era uma viagem de aventura tornou-se em um “rito de passagem”.


A vontade de conhecer

A viagem termina na Amazônia peruana, com uma das cenas mais emocionantes dos filmes de viagem, quando Ernesto atravessa o Rio Amazonas a nado. A travessia representa não somente o desejo dele de estar com os leprosos, com os menos favorecidos, nessa luta contra as injustiças do mundo que marcaria sua vida, mas também a luta de um viajante, desbravador, querendo percorrer aquele caminho nunca percorrido, sob a desconfiança de alguns, mas com a torcida de outros.

Quando Guevara atravessa o rio, me senti um pouco naquela travessia, nem que eu nunca tenha de fato sequer conhecido o rio Amazonas, mas através dos sentimentos de quem viaja.

Aliás, toda a experiência de Ernesto é universal, para todos os viajantes, mesmo aqueles que não se aproximam do estilo de viagem apresentado no filme. Tanto Ernesto como Alberto viajam em busca de aventura, diversão e curiosidade, mas acabam encontrando o conhecimento, o conhecimento dos lugares, das pessoas e de si mesmos.

Porque todos os viajantes (e os turistas também, se é que há realmente essa diferença) têm uma coisa comum: a vontade de conhecer. 

Textos de referência:

Contardo Caligaris: artigo interessante para quem quer ler um pouco mais sobre o caráter político da viagem, Caligaris fala sobre os mochileiros sem justiça e os justiceiros sem mochila derivados de Che Guevara

Walter Salles para a Folha: Salles comenta como foi o processo de desenvolvimento do filme, desde o roteiro e suas expectativas

The Worldwide Guide to Movie Locations: o site apresenta todas as locações do filme

11 comentários

  1. Jussara, pois é esse filme merece ser revisto. Eu não tinha gostado muito da primeira vez, ao rever gostei muito mais e acho que se eu ver novamente, acredito que gostaria mais ainda. hehehe… Mas sempre pensando o que você citou muito bem, rs, meu estilo de viajar não tem nada a ver com o deles. 🙂 Abração.

  2. Eu devia estar lendo os posts sobre Alagoas, mas parei nesse aqui. ;D Vi esse filme há muitos anos, no cinema, em outro país, e na época eu não sabia nadinha de espanhol, foi bem difícil e eu não entendia muita coisa do que falavam. Ainda assim gostei muito (ainda bem que um filme não é feito somente de palavras) e foi ele que me fez ter vontade de conhecer os países "hermanos", embora isso tenha demorado muito tempo para começar a acontecer, e ainda faltem vários países (o Peru é um dos que estão na minha lista de desejos).
    Lendo seu texto vi que eu já não lembro de quase nada, e acho que chegou a hora de revê-lo.

    "Enfim, se você quiser saber como eu viajo, é só pensar no oposto a tudo o que eles fazem." Hahaha, ri muito, e me identifiquei com sua frase. O meu estilo de viajar também é oposto ao deles.

    Abraços.

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